Domingo, 24 de Julho de 2005

Sobre as regras da estupidez sofisticada

Há quem diga que ter um aeroporto no meio da cidade é um pouco estúpido.
Mas, nos raros casos em que ele existe, destruí-lo e construir outro a
dezenas de quilómetros é uma estupidez muitíssimo maior. Se alguém, por
estar cheio de sede, partisse o copo exigindo um grande, seria muito
idiota. Aquilo que é estúpido com copos, é muito mais estúpido com
aeroportos. A planeada construção do aeroporto da Ota é, sem dúvida, um monstruoso
disparate. Mas ela possui uma característica muito particular, que a arruma
numa classe bem especial de disparates. Trata- -se de uma estupidez apoiada
por vários estudos eruditos e muitas pessoas inteligentes e
bem-intencionadas. Trata-se, portanto, de uma "estupidez sofisticada",
daquelas que constituem a elite, não tão pequena quanto se pensa, do
populoso conjunto da asneira.
Possuímos há muitos anos As leis fundamentais da estupidez humana,
formuladas pelo grande historiador económico Carlo Cippola (editado em
português em Allegro ma no troppo, Celta Editora, 1993). O autor define
"Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo
de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até
vir a sofrer um prejuízo" (op. cit. p. 60). Esta teoria, de grande
actualidade, exige uma extensão importante.
Para além da estupidez natural, principal fonte da vasta burrice mundial,
existem também actos estúpidos feitos por pessoas inteligentes e cultas. É
aquilo a que podemos chamar a "estupidez sofisticada". Esta realidade é
fácil de detectar nos vários campos da estultícia humana. Uma pessoa
estúpida cai no "conto do vigário", mas é estupidez sofisticada cair numa
bolha especulativa da Bolsa. Historicamente, temos estupidez natural em
batalhas como Alcácer Quibir e Little Big Horn, e estupidez sofisticada na
campanha da Rússia de Napoleão (a de Hitler cai no primeiro grupo) ou na
recente guerra do Iraque. Na política actual há, por exemplo, pessoas
estúpidas fazendo manifestações contra a globalização, condenando o que não
entendem nem podem alterar. Mas existe estupidez sofisticada na PAC ou no
lançamento da Constituição Europeia.
No nosso país, foi estupidez natural participar na I Guerra Mundial, e
estupidez sofisticada tentar criar o "espaço económico português" do Minho
a Timor. Se nos limitarmos ainda mais ao campo específico dos "elefantes
brancos", detecta-se acção de pessoas estúpidas nos estádios do Euro 2004,
e estupidez sofisticada em obras como o complexo de Sines, o Alqueva e
agora a Ota e também o TGV.
Se a questão da estupidez natural está bem estudada, a estupidez
sofisticada é muito mais complexa. Como podem tantos especialistas
conceituados e bem-intencionados, tantas análises complexas e elaboradas
resultar numa parvoíce tão evidente? Se o aeroporto da Portela está a ficar
cheio, faz sentido adaptar um outro para o complementar, mas não
substituí-lo, como se fosse um fósforo gasto.
Este caso permite ilustrar bem as regras que comandam a estupidez
sofisticada, muito diferentes das da estupidez natural. Aqui, tal como nos
exemplos referidos, alguns traços essenciais ressaltam claramente. Primeiro
existe uma dose elevada de arrogância, a pior fraqueza dos especialistas.
Depois há interesses instalados com grande poder de influência, que
beneficiam muito com a decisão. Existe ainda, e sempre, um mito abstracto
que suporta a estupidez. Neste caso, o sonho de que o aeroporto promova o
crescimento do País, quando afinal só fará crescer a imigração. Finalmente,
existe triunfo garantido para o ministro que anuncia o investimento, o qual
estará longe quando o futuro revelar a dimensão do disparate.
Os nossos filhos vão enfurecer- -se com a estupidez do aeroporto da Ota.
Mas isso não é extraordinário. Hoje, os passageiros da Gare do Oriente, em
Lisboa, gelam no Inverno e assam no Verão debaixo da belíssima estação
criada pelo grande arquitecto Santiago Calatrava. Possuímos uma das mais
elegantes e estúpidas estruturas de toda a Europa.

João César das Neves - PORTUGALCLUB
publicado por tutank às 17:43
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