Domingo, 30 de Outubro de 2005

Cantarolices - Modas à Margem do Tempo

O álbum que apresentamos neste número tem por título "Cantarolices" e é-nos trazido pelo grupo "Modas à Margem do Tempo". Tanto o título do trabalho como o nome deste grupo sugerem a sua própria génese e devolvem-nos o mote para este texto. Sem pretensões etnográficas e sem qualquer carácter patrimonial e histórico evidente nas composições apresentadas, este grupo mantém-nos à margem do tempo, mas no nosso tempo e revisita as modas alentejanas tal e qual as poderíamos sentir hoje, de dentro de um outro envolvimento social e laboral, que não do resultante do trabalho na lavoura, mas de outro, claramente urbano e elaborado de acordo com essa realidade, nem por isso menos importante. Na impossibilidade física de podermos recuar no tempo, é desta forma, sem desprimor por todas as outras, original na orquestração e arranjos, que também poderemos perpetuar as nossas raízes, as de todos nós, e nitidamente as daqueles que aqui nos trazem as suas cantarolices interpretando as modas presentes neste álbum. Ao rigor das vozes mais tradicionais e mais coladas às melodias originais, da responsabilidade de José Melo e Tolentino Cabo, este trabalho acrescenta outros elementos que nos remetem para a realidade de hoje, cosmopolita e necessariamente aberta a outras influências e sonoridades. Nem sempre como no caso presente essa síntese se revela tão feliz e apropriadamente confeccionada, bem temperada e aguçada com os cheiros da região. É assim que àquelas vozes se juntam as harmonias das guitarras acústicas, construindo uma base sonora à qual se adiciona a bem temperada secção rítmica, muitas vezes constituída pelas percussões de Cláudio Trindade e ainda pelo acordeão de Celina Piedade ou pelo violoncelo de Susana Santos, mais por aquele, muitas vezes alternando a colocação rítmica pela harmónica e vice versa, ao longo dos temas ou nos vários temas, traduzindo uma sonoridade muito bem conseguida, também na construção harmónica, sublinhando as melodias ou o seu contraponto. Destaque para os temas onde o violoncelo ou o acordeão são chamados para a primeira linha de construção dos arranjos, como por exemplo em "Pombinha Branca", onde revelam uma expressão pouco habitual nestes ambientes e por isso muito original. Onde o apurado acerto no tempero se revela é na junção das masculinas e femininas. Sem traduzir qualquer rigor na interpretação do tradicional, a verdade é que as cinco vozes se conjugam de forma excelente, constituindo esta uma das principais particularidades deste trabalho, matizado pela polifonia de vozes e instrumentos. Quase sempre os temas são iniciados pelas vozes masculinas, mas é no momento da sua união com as vozes femininas que o brilho da melodia mais se evidencia, tanto pela harmonia que criam, no uníssono, como pelo interesse que proporcionam os temas, quando enquadram o elemento de resposta. É o caso de "Extravagante" onde o tema é interpretado na primeira parte também pelas vozes femininas, em contratempo. A segunda parte deste tema, apenas interpretada pelas vozes masculinas, não seria tão evidente e conseguida sem o contraponto dado no início pelas vozes femininas, que voltam no final do tema. Quando conjugados com a qualidade das melodias alentejanas, este conjunto de factores e sabores complexos, de difícil tempero e equilíbrio, criam um som original, mais evidente nos temas onde tudo isso se concretiza de forma exemplar como na "Moda do Manageiro" ou em "A Ribeira". Por último, duas notas. A primeira para as representações em barro da "Oficina da Terra" que muito agradaram e a segunda para a ficha técnica, demasiado pobre e resumida, aquém do que o trabalho, produto da região, merece, nomeadamente no que se refere às data de edição ou a informação sobre os temas interpretados. Ficamos à espera do próximo trabalho, na expectativa da confirmação deste som e do apuramento das suas qualidades, made in Alentejo

In Revista Alentejo (Setembro / Outubro - 2005)
publicado por tutank às 17:57
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005

Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem...

Esta é a conclusão de um relatório internacional recente sobre o desenvolvimento português.
Havia até agora no mundo países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Trata-se de regiões que fizeram tudo o que podiam para estragar o seu processo de desenvolvimento e... falharam. Hoje são países industrializados e modernos, mas por engano. Segundo a fundação europeia que criou esta nova classificação, no estudo a que tivemos acesso, este grupo de países especiais é muito pequeno.

Alias, tem mesmo um só elemento: Portugal.

A Fundação Richard Zwentzerg (FRZ), iniciou há uns meses um grande trabalho sobre a estratégia económica de longo prazo.

Tomando a evolução global da segunda metade do século XX, os cientistas da FRZ procuraram isolar as razões que motivavam os grandes falhanços no progresso. O estudo, naturalmente, pensava centrar-se nos países em decadência. Mas, para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinha também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso. Desconcertados, acabam de publicar, à margem da cimeira de Lisboa, os seus resultados num pequeno relatório bem eloquente, intitulado: "O País Que Não Devia Ser Desenvolvido"

- O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses. "Num primeiro capítulo, o relatório documenta o notável comportamento da economia portuguesa no último meio século. De 1950 a 2000, o nosso produto aumentou quase nove vezes, com uma taxa de crescimento anual sustentada de 4,5 por cento durante os longos 50 anos. Esse crescimento aproximou-nos decisivamente do nível dos países ricos. Em 1950, o produto de Portugal tinha uma posição a cerca de 35 por cento do valor médio das regiões desenvolvidas. Hoje ultrapassa o dobro desse nível, estando acima dos 70 por cento, apesar do forte crescimento que essas economias também registaram no período. Na generalidade dos outros indicadores de bem-estar, a evolução portuguesa foi também notável.

Temos mais médicos por habitante que muitos países ricos. A mortalidade infantil caiu de quase 90 por mil, em 1960, para menos de sete por mil agora. A taxa de analfabetismo reduziu-se de 40 por cento em 1950 para dez por cento.

Actualmente a esperança de vida ao nascer dos portugueses aumentou 18 anos no mesmo período. O relatório refere que esta evolução é uma das mais impressionantes, sustentadas e sólidas do século XX. Ela só foi ultrapassada por um punhado de países que, para mais, estão agora alguns deles em graves dificuldades no Extremo Oriente. Portugal, pelo contrário, é membro activo e empenhado da União Europeia, com grande estabilidade democrática e solidez institucional. Segundo a FRZ, o nosso país tem um dos processos de desenvolvimento mais bem sucedidos no mundo actual. Mas, quando se olha para a estratégia económica portuguesa, tudo parece ser ao contrário do que deveria ser.

Segundo a Fundação, Portugal, com as políticas e orientações que seguiu nas últimas décadas, deveria agora estar na miséria. O nosso país não pode ser desenvolvido. Quais são os factores que, segundo os especialistas, criam um desenvolvimento equilibrado e saudável? Um dos mais importantes é, sem dúvida, a educação.

Ora Portugal tem, segundo o relatório, um sistema educativo horrível e que tem piorado com o tempo. O nível de formação dos portugueses é ridículo quando comparado com qualquer outro país sério. As crianças portuguesas revelam níveis de conhecimentos semelhantes às de países miseráveis. Há falta gritante de quadros qualificados. É evidente que, com educação como esta, Portugal não pode ter tido o desenvolvimento que teve. Um outro elemento muito referido nas análises é a liberdade económica e a estabilidade institucional. Portugal tem, tradicionalmente, um dos sectores públicos mais paternalista, interventor e instável do mundo, segundo a FRZ. Desde o "condicionamento industrial" salazarista às negociações com grupos económicos actuais, as empresas portuguesas vivem num clima de intensa discricionariedade, manipulação, burocracia e clientelismo. O sistema fiscal português é injusto, paralisante e está em crescimento explosivo. A regulamentação económica é arbitrária, omnipresente e bloqueante.

É óbvio que, com autoridades económicas deste calibre, diz o relatório, o crescimento português tinha de estar irremediavelmente condenado desde o início. O estudo da Fundação continua o rol de aselhices, deficiências e incapacidades da nossa economia. Da falta de sentido de mercado dos empresários e gestores à reduzida integração externa das empresas; da paralisia do sistema judicial à inoperância financeira; do sistema arcaico de distribuição à ausência de investigação em tecnologias. Em todos estes casos, e em muitos outros, a conclusão óbvia é sempre a mesma:

Portugal não pode ser um país em forte desenvolvimento.

Os cientistas da Fundação não escondem a sua perplexidade. Citando as próprias palavras do texto: Como conseguiu Portugal, no meio de tanta asneira, tolice e desperdício, um tal nível de desenvolvimento? A resposta, simples, é que ninguém sabe.

Há anos que os intelectuais portugueses têm dito que o País está a ir por mau caminho. E estão carregados de razão. Só que, todos os anos, o País cresce mais um bocadinho. A única explicação adiantada pelo texto, mas que não é satisfatória, é a incrível capacidade de improvisação, engenho e "desenrascanço" do povo português. "No meio de condições que, para qualquer outra sociedade, criariam o desastre, os portugueses conseguem desembrulhar-se de forma incrível e inexplicável." O texto termina dizendo:

"O que este povo não faria se tivesse uma estratégia certa?".

PORTUGALCLUB
publicado por tutank às 11:59
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